segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Meu lado negro, podre, sujo...





O verdadeiro poeta
é aquele que sofre
é aquele que morre
e inventa seu próprio devaneio

Pobres poetas perniciosos
que magoam e ferem pelas palavras
que beijam corações e se dizem amigos
mas que os dilaceram por trás
com afiadas facas

Ame uma, duas, três ou quatro
Invente a dor para escrever melhor
Invente a angústia e seja falso
que aí o poeta encarna em você

De que me vale amar unicamente
e ser solitário por entre as vielas de minha alma
se posso tentar um amor de repente
e voar ao mais alto das escadas rolantes?

Louco, louco, louco!
Inconstante, galinha abobalhado!
Sou quimera viva, inebriante
Modesto pasto do cerrado
Me chame de tonto
besta cegueta
Me chame de favo de malaguetas
De conto repetido do vigário!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Minhas seis horas da tarde




Pior hora do mundo
quando o Sol não sabe se fica
e a noite nao sabe se vem

Eu, com eles, marasmado
não crio nem sou inventado
não acendo nem apago
o comprido charuto de morte

Seis horas da tarde
Que não é dia nem é noite
Eis a pior hora do dia
Sem calor ou dor
Tudo frio, azul e branco
as nuvens vão escondendo o sol
que teima em ir por si só
E as estrelas brilham para a lua entrar


Seis horas, abençoada seja
É aí que eu não amo
nem odeio
Não vivo nem morro
É aí que sou um qualquer
a ir ou vir, sem cessar...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Narguilé



Eu estou aqui
fumando meu incenso indiano
apenas pelas narinas

O cheiro da madeira queimada
lembra-me, e muito,
o odor de meu coração apaixonado...

A cachoeira de vapor
escorre rapidamente para cima
Como a dar saltos longos
a correr para meu nariz

Trago, mas só o ar
que está em volta
E creio que este seja o pior
Cheio de pensamentos e desejos malévolos

Quero apagar tudo isso
que acabo de escrever
Mas qual a graça
de ter sempre o poema perfeito?
Deixo, então, não o poema
a ser lido
Mas minha dor de amar
e não ser correspondido...