sábado, 12 de janeiro de 2013

A morna das horas



Manhã tão arredia,
teu espanto é bem mais meu.
Figuras, somente, ao mundo
o que de mim tanto tu fazes.

Quando chegas e te aprumas,
e clareias com belo Sol ou brumas
as noites em que flutuo perdido,
sinto minha alma elevar-se
procurando algum chamado
que não ouço.

És nebulosa e céu limpo,
azul e rosa quando derramas em teu leito
o sangue inocente que morreu na noite.
E coronária do coração que aperta,
manhã doce, tu libertas no homem
o desejo de ser livre.

Manhã tão arredia,
tu não és noite, nem dia.
És solidão e ventura,
és cinza e negra, e alvura.

Compasso desregular das horas,
eu te espero logo além da curva que não fazes.
Te espero e guardo com a vontade
de ser tão morno quanto tu: sem início e fim, só meio.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bilhete pro deus

Deus,
a gente só quer ser feliz.
a gente só quer ter um amor
e crianças correndo pela casa com a barriga sempre cheia.

Deus,
a gente não gosta de muita chuva sem uma paixão,
nem de muito Sol sem uma piscina.
a gente só quer um pouco de tranquilidade.

Sim,
a gente só um pouco de felicidade.

Amargura

Amargo é o não poder querer-te,
e ver no peito do outro o seio que quero comigo.
Amargo é não ter em minha boca o flerte
por amares cegamente o amor de meu grande amigo!

Quisera eu! ter a alma dos anjos e não amar,
sequer, a alma de uma criatura humana!
Mas minh'alma é dos homens poetas: fraca e triste,
que recobre-se no que insiste em vê-la nua,

e em minha cama!

Para Z.S.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Folha de Jurema




Meu pai, fui almoçar.
Fui-me embora pra fazenda,
fui pro mato pra caçar.
Caçar peixe no riacho, tatu na beira do rio.
Oh, meu pai, mato faz frio,
mas caçador tem que caçar.

Fui pro mato, meu paizinho,
fui pro mato pra caçar.
Saco vazio não para em pé,
meu terreiro está cheio,
e eu preciso curimbar.

Fui escravo de homem branco.
Meu pai, dá-me acalanto,
como eu sofri em pranto
por não saber me embrancar!

Hoje sou cavalo de terreiro,
e tenho o Caboclo Flecheiro,
caboclo de raça, guerreiro, na minha banda a resguardar!
Eu sou é filho de Angola, de Ketu, Jeje e Nagô,
sou filho de todo amor, sou filho de Oxalá!

Eu sou cria do ventre
de um navio negreiro!
Preto-velho do terreiro, cabeça baixa no gongá..
Sou benzido com as ervas da Jurema,
na mata verde e serena,
canto pro Juremá!

Choro fajuto

Dias cinzentos de Sol
são tão tristes...
O amor não resiste
nem a uma manhã ensolarada.

É necessário que se sofra,
que se arranhe por dentro,
e se morda.

Meus olhos lacrimejam
mesmo num dia de Sol.
Eu julgo ser a mesma tristeza
dos dias frios e opacos.
Mas não. Deve ser o ventilador no meu olho.

Feliz aniversário


Feliz aniversário, meu amor.
Há três anos eu te amo.
Há três anos eu escondo o quanto te amo.

Sei que não haverá bolo nem bexigas coloridas.
Não temos convidados, nem o parabéns.
Esse aniversário é só teu em mim.
Nem tu o sabes!
Mas feliz aniversário, meu amor...

Feliz aniversário, meu amor.
Há três anos eu te amo.
Faz três anos que tu nasceste para mim.
E que eu morri pro resto de tudo.

Feliz aniversário, amor.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Moça Branca VIII - Canto só

Como eu queria que você viesse!
Como eu queria tê-la em meus braços!
Já não me basta mais o sonho,
nem os delírios do poeta nefasto!

Moça Branca, mulher de mim.
Tu me levaste o que eu tinha de melhor...
E a poesia descabida é ventura,
cobertor da dor de estar sempre só!

Doce volúpia em minha boca.
Eu não lhe sinto nem lhe posso sentir, eu sei!
Estou na Lei dos escreventes fracos do amor.
A Lei mais bela dos parcos beberrões!

Canto só e tristonho,
louco de pedra a desejar quem já amei!
Impossível é tirar do peito as belas canduras,
as belas alvuras com as quais Afrodite brindei!

Choro eu, cá no porão dos aflitos.
Mas não me importo em estar sempre só e são.
Que minha loucura é pelas saias que giram
e pela boca vermelha a me desvairar em prontidão.

À Moça Branca rendo meus prantos
com a saudade dos seios que nunca tive;
com a ternura do amante incendioso
e do libidinoso que não resiste...


Para M.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Caminhão de mudanças

É do mover-se natural estar só, e parado.
Nada muda aos que se movem.
Anos, meses e dias iguais.

Movo-me. Não mudo.
O que eu falo é a vontade de escrever o que não escrevo.
Deram-me, no parto, o sangue movente.
E a saudade da mudança é sempre eterna em meu peito.

Se o grito da vela é a parafina que escorre,
eu me socorro é onde quebra no rochedo a grande onda.
Confusão do mar solitário e ventania.
Tudo move e permaneço.

É do mover-se natural estar só, e parado.
Mistura é sempre Um. Amálgama é celeste.
Dou um passo, já não sou.
Reconstruo-me de água.