sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Homem-deus-uno-múltiplo




O entusiasmo do poeta Íon e as bacantes,
a lascívia dos sacrifícios do grande bode.
O compasso desmedido da hybris flamejante...
Ó Grécia, louvar teu Dioniso é pra quem pode!

O Sol da lógica do reto pensamento,
a coroa do saber e de tudo o que é regrado.
Louvar o vinho é se querer o sofrimento...
Louvar o teu Apolo, ó Grécia, é estar santificado!

Mas que louvem a mim, o novo deus!
Que me louvem e me rendam oferendas!
Deem-me flores e frutas e vinhos,
mulheres nuas e carinhos,
que eu sou maior do que o próprio Zeus!
Eu sou o Homem Um e o Múltiplo,
homem-mistura entre o profano e o sagrado...
Se Apolo me guia pela cabeça,
é Dioniso quem me está ao lado!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Canto aos que me cantam - Iemanjá




Ó, minha Mãe,
derrama-me tuas águas!
Ó, minha Mãe, 
minha Mãe d'Água,
afoga-me com teu mar revoltoso,
afoga-me contigo, que tu és o próprio mar!

Odoyá, Orixá-água,
teus colares refletem a luz pro meu caminho!
Janaína, Orixá-vida,
sou teu filho pescador e
sei que não estou sozinho!

Dia dois é que eu te canto
vestido de azul e branco
com turbante na cabeça.
Dia dois sinto a firmeza
do meu nascimento nas águas de prata.

Minha Mãe, levo-te flores
e barquinhos de amores
carregados de perfume!
Te pedindo, ó Mãe Querida, 
que tomes conta da minha vida,
que resguarde a minha casa,
o meu sobrado pequenino.

Axé, minha Mãe, é o que peço!
E rezo, e trabalho, e sofro!
Ainda tenho o alvoroço 
das confusões por ser criança...
Dá-me a tua esperança ante a causa já perdida!
Dá-me o sopro que se cala, dá-me a voz que já não fala,
que tu és a rocha mais firme que me ampara nesta vida!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Espero que você me queira

Você não consegue me fazer de bobo,
eu já conheço a artimanha desse teu postergar.
Deixa disso, e vem logo.
Entregue-se. Se entregue as tempestades...

Não vou cansar de te esperar,
você pode fingir não me querer 
o quanto quiser.
Eu sei o quanto você me quer.
E sei, mais ainda, o quanto eu te quero.

Demore, que eu espero
apesar de toda minha pressa em querer
novamente o teu abraço e o teu sorriso.

Demore, que eu te quero
mesmo com esse gostinho de demora.
Demore, mas sem demora,
que eu te quero pronta aqui, 
pronta pra nossa próxima vez.

Você não consegue me fazer de bobo.
Eu já sei o quanto você quer me chamar de homem,
e ouvir eu te chamando de mulher.
Demore, mas venha.
Mas, por favor, venha assim que puder...


Para a13.

À senhora dos cabelos de leão

Quero novamente o teu beijo!
O meu desejo de tocá-la 
se aninha em minh'alma
de tal forma que me acalma 
e me alucina por inteiro!

Ah, meu amor que não vejo!
Quero ter-te mais senhora dos meus pensamentos,
quero ter o momento
de pôr minhas mãos no delinear do teu corpo!
E tudo me será tão pouco
ante a grandeza dos teus cabelos que são qual chama!

Ó vem, meu desejo,
me dá teu ensejo, me estilhaça na cama!
Sou tua ternura amiga,
a paz no meio das tuas intrigas, 
sou quem te ama, e ama, e ama!


Para a13.



Parto para chegar

Me vou embora,
que não me cabem mais
as algemas de não ser-te.
Já não me detenho em buscá-la em outros cantos
que não aqueles de minha casa e nosso corpo.

Estou cansado dos louvores sinuosos
que eu canto ao teu corpo e ao teu peito.
Não sou o que te perde e o que te acha,
e por isso me vou,
vou-me, mesmo que eu me desfaça contrafeito.


O amor, em mim, tem duas faces.
A que se foi e a que aqui está, e permanece.
Tu me foste um sonho bom que hoje desperta.
E hoje só tenho a parte que me anoitece.

Se vou tecendo retalhos
da poesia que, sucinta, escrevo,
é que te quero sempre, ainda que pouco,
balbuciando em minhas entranhas o que ainda não me dizes.

Mulher, se hoje somos infelizes,
o tardar da dor no peito é somente culpa tua.
Estou aqui, à tua espera,
na paixão que galanteia e reverbera
a delícia de nossas almas nuas.


Para a13.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Leve dois e pague um

Te fiz um poema, meu bem.
Mas eu nem sei se tu gostas de poesia.
Na verdade,
do que mais gostas, meu bem, 
além de brincar com meus desejos?
Do que tu gostas mais em mim 
do que de minha boca e só minha boca?

Te queria tanto, meu bem.
E ainda quero. Ainda hoje, se possível.

Te fiz um poema. Mas eu nem sei se gostas mesmo de poesia.
Mas quem não gosta de poesia com um beijo como o teu?
Não sei, meu bem. Não sei.

Só sei que te fiz um poema.
E é este aqui, pequenino.

E mesmo que tu não me queiras,
aceita meu poema.
Queira meu poema.

Pelo menos assim me sentirei mais teu,
mais na tua casa, no teu quarto, na tua gaveta,
na tua caixa de lembranças..

Mesmo que não me queiras, meu bem, queiras tu minha poesia.
Pois que levando-a me levarás por completo,
e por brinde, 
e em dobro.
Tipo no leve dois e pague um.


Para a13.

Migalhinha

Estampo agora em meu rosto um sorriso de mentira.
Já foi-se o tempo em que eu dizia só verdades.
Hoje ninguém precisa saber do meu eu,
nem eu.

Deixo o tenebroso às sombras do meu intracorpo.
A tenda do meu circo é colorida por guirlandas,
mas na arena do meu peito é o estrume que opaca.

Qual o problema de ser belo e feio ao mesmo tempo?
Não há motivos para sorrir.

O homem que sorri é o mais são!
E o poeta não é são! é a-são! é não! negação!
O homem que sorri, sorri por saber mais da tristeza,
e por ela ter amizade complacente.

Eu sou poeta, verme-indizente.
E choro minhas verdades na brancura das desverdades.
Clamo por meus poemas sorrindo o estoque que tenho.
E não me abate o meu eu, que já não é.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Sejamos amantes

Deixe-me ser o seu amante.
Por favor, não tenha medo,
que eu sei bem guardar segredo,
e sei ser bem mais que um amigo.

Por favor, não faz isso comigo.
Não me deixe esperando,
não me deixe amargurando
só o cheiro do teu corpo vestido.

Eu quero correr o perigo
de ser pego em tuas pernas.
Eu quero tomar o teu tempo
que é sem amor e sem cama...

Eu quero, te quero, me queira, me chama!
Chama o teu velho amigo,
não custa correr o perigo
que vai incendiar nosso corpo...

Vamos morar um no outro,
e fazer um do outro abrigo.
Eu cansei de ser só seu amigo,
eu cansei de ser só um instante...

Venha morar no meu quarto,
me faz outro ser, delirante,
que desse marasmo estou farto...
Sejamos amigos, mas sejamos amantes!


Para Z.S.