sexta-feira, 21 de junho de 2013

Furto

Durmo na certeza dos olhos que ainda tenho.
Durmo na certeza do pulmão que ainda respira.
Durmo com as pernas lisas e a cara bem lavada,
só com a certeza do corpo são que me restou.

O meu espírito já é um nada de si mesmo.

De resto: nada sou.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Outros mapas

Mulher das cartas da terra,
escreves, porventura, também cartas pelas mentes?
Onde desenhas teus mapas
de ar e de águas,
teus mapas astrais?
Onde escreves tuas cartas,
teus anos e datas, teus portos, teu cais?

Mulher da rocha luzidia,
me digas com o sabor de teus sons noturnais
onde estás,
onde estás para que eu possa vê-la a todo sempre,
sem cessar...

Geógrafa das planícies não concebidas,
dos vales e montes e morros que ainda germinam no âmago da Terra!
Me digas, senhora das carnes da serra,
onde tu te enlevas e te cobres de pluma...

Ó mulher das contas da Terra,
que escreve sobre o mundo palpável,
me digas onde vai o teu coração!
Me digas onde estão os pés que lhe andam...
Me digas se lhes desandam
ou se o descompasso do compasso é preciso!

Me digas,
e digas mais do que isto,
senhora dos temores e sumiços,
senhora da geologia dos perdidos:

Me digas o que é isso que eu sinto!
Me digas o que é isto que eu sinto!


Para Isabô

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Dor de não sentir dor



Nada sinto.
É doloroso não sentir nada
e ao mesmo tempo não é.
Nada sinto
e é como se eu sentisse tudo o que está no mundo,
porque muito creio que quando se é alegria não se pode ver-se alegre;
nem que quando se é tristeza triste se pode ver-se.

Nada sinto e é como se tudo eu sentisse.
Nada mais me comove, porque já me estou comovido.
Nada mais me alegra ou me entristece,
porque já sou a parte da alegria e da tristeza que me cabe.

Como e durmo. Só.
E a ninguém amo.
Porque amo já a todos.

domingo, 9 de junho de 2013

Carpe diem

Privar-se do prazer momentâneo em vista da possibilidade de não sofrer futuramente suas consequências (e assim poder gozar de outros prazeres) é uma contradição por si só. Privar-se do prazer momentâneo é privar-se sempre, postergando para o Nunca, para o Jamais, para o Nada, aquilo que lhe daria a satisfação por cada ato.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Luzidia

Fiz este pequeno poema
O sentimento palavreado
E pus aqui no cantinho, guardado,
a fim de preservar o que ainda está por vir.

Poema-anunciação
Eterno-retorno do que não foi e já é.

Quem nos dirá daquilo que o profeta não contou?

Lei de Poesia


Fiz a Lei dos Mártires Prisioneiros
e a pus no celeiro dos Grandes Guardiões.
Descansei e pude ver no horizonte, que não existe,
a faísca bela e crepitante da fogueira de São João.
Do outro lado havia o Escuro e suas cores
que são mais negras que a própria Negritude;
do outro lado mesmo lado a escuridão se apossou de mim
- eu pude ver o clarão do que não pude.

Há no mundo aquilo que não pode ser dito.
E tudo isto é muito mais do que se diz.
Quando a poesia acorda de seu sono vagabundo e vem à Terra
é pra acabar de uma só vez com o desdito.

Eu fiz a Lei dos meus próprios versos
e quem está fora apenas está fora de minha lei.
Fiz uma Lei que descerra o que cerra a porta da prosa
e desbrava a mata orgânica do corpo de todos os homens!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Saudade

I. Eu não sei lidar com a saudade.
A falta das coisas que deixei pra trás como o resto de janta de um dia farto de comida me dói demais o peito. Há tanta travessia no mundo que talvez mais livre seja aquele que decide se prender a algo do que aquele que se abandona no devir. Sei lá, quem garante que estar preso não é também estar no devir das coisas presas?
Sinto saudade e dói.
Sinto saudade e bebo.
Dói e bebo. Mas sempre dói, e daí sempre bebo. Loucura!

Mas a saudade? fica. Não vai embora.



II. Sinto saudades de tua face branca, de teu olhos negros, de tua boca vermelha, de teus cabelos ondulados. Sinto falta de como isto se harmoniza tão bem em você.
Sinto falta do teu corpo vestido de mistérios e imaginação.
Falta do teu cheiro que nunca foi meu.
Sinto falta das coisas que não vivemos e que poderíamos ter vivido. Dos amigos em comum que poderíamos ter criado.
Sinto tanta falta que me dói o peito não ir almoçar em tua casa todo domingo, de não andarmos de mãos dadas pelas ruas da cidade...
Como dói, como dói a saudade das possibilidades perdidas, dos horizontes escurecidos, dos sonhos liquefeitos em lágrima.
Como dói sentir tua falta, Moça. 
Como dói.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A frieza do poeta

Há tanto frio em minha alma!
Que coisa bela!
Há aqueles que dizem só haver beleza na tristeza.
Acho que concordo.
Acho não, concordo definitivamente.

Só espero não ser oco jamais.
Jamais me faltar as palavras de dor,
as angústias da escrita.

Quero ser senhor de mim,
e me vejo tão fraco ao mesmo tempo...
Que coisa estranha! hahaha

Temo a morte e o morrer,
mas desejo como o namorado
que finge não querer o beijo de sua amada.

Que coisa. Tudo são coisas.
A morte é uma coisa. A vida é outra.
O que há entre estas duas coisas.. Ah! aí já é outra coisa
que não as coisas já ditas!

Há tanto frio em minha alma
que este era pra ser um poema de amor.
Mas foda-se.
Abrirei um acerveja. As coisas melhorarão.

domingo, 21 de abril de 2013

Brancas crianças

Vejo crianças à minha frente.
E muitos são os que a elas olham.

Brancas e loiras, e indecentes
pela inocência que trazem nas mãos sujas de terra.
Há crianças na minha frente. E eu detesto todas elas.

Sinto inveja daquilo que eu quis ser, e que não fui.

Minhas mãos agora estão sujas de tinta.
Eu só escrevo e finjo que brinco na terra.

Há crianças na minha frente. Eu detesto todas elas.


Em casa de Rui Barbosa, Botafogo.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Expurgo

Procurar o sofrimento é procurar se livrar dele. Não se elimina a praga que não se conhece o nome. Se não há alegria, que se sofra bem sofrido. Expurga-se o mal da dor ao se sofrer em demasia... É a Tragédia da alma. O necessário. Sofrer é da consciência humana a essência, o primordial para a Comédia das paixões...

domingo, 14 de abril de 2013

Amo teu novo amor II

Amo teu novo amor.
Amo-o por ser a minha potencialidade de amar.
Amo-o por lhe fazer o que eu quis.
Amo-o por ser aquilo que tu amas, e não sou.

Amo teu novo amor
com toda a dor que posso ter.
Amo-o por deixar-lhe bem o seu abraço.
Amo-o pelo beijo que lhe dá.
Amo-o por lhe tornar aquilo que tu sempre quiseste ser.

Amo-o, infinitamente.
Amo-o em manifesto à minha impotência.


Para Moça Branca (Rio, 14/04/13)

Parir

Estou grávido de mim.

Engravidei-me de minha alma.
Do que creio
e sinto.

Estou grávido de mim
e me sou todo eu mesmo.
Meu filho sou eu.

Parir deve ser morrer.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Tu e teus homens inúteis

Não te escreverão poemas.
Não te enviarão cartas de amor.
Esses homens como os teus
são da carne comum do dia.

Não há cafés e livros que se cheiram
com estes homens inúteis com quem tu andas.
Não há cheiro bom de coisa velha.
O cheiro velho dos teus homens não é de alfazema,
nem de lavanda.
É de mofo.

O teu paladar não sentirá as
estrelas do céu da boca do poeta.
E constelações não haverá
no céu de tua treva.

Não te escreverão poemas,
porque estes teus homens não falam pelas palavras.
Estes teus homens gritam pela pele,
e somente pela pele,
o que tentam sentir mas não sentem.

Não te escreverão poemas
porque teus homens inúteis não te veem pelos olhos.
Teus homens inúteis e vazios de si
enxergam apenas o que a luz faz do mundo: reflexo.

Eu te escreverei poemas.
Não os entregarei, pois que tu quiseste ser livre
e todo poema escrito é prisão de coisas sentidas.
Eu te escreverei poemas guardados em mim,
escritos em minha alma
com a pena da asa da tua liberdade.


Para Moça Branca

Farol


Quando tu surges nas madrugadas sombrias,
às horas da desventura de uma palavra incerta,
contigo trazes  a quentura necessária
ao descanso e ao delírio do poeta...

Não me vens em carne, eu estou certo.
Mas pra mim é como se assim tu te apresentasses.
De ti eu recordo e me desperto
pra do teu breve momento galgar eternidades...

Iluminas tudo aqui com a imensidão
de uma tempestade em voz de calmaria...
E trazes chuva que amedronta e admira
a pela dura e fria dos desamores...

Tu és os novos sabores, o Sol do dia que as trevas arrebenta...

És reflexo da luz que na água incide,
o arco-íris que o bom Deus inventa!


Para Moça Branca

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Desprendi-me em ti

Largo meus vícios.
Me troco, visto outra roupa.
Corto até meu cabelo,
tiro os pêlos da cara.

Quero mãos dadas
e olhos de olhar estrelas.
Mãos-asas, pra voarmos até o infinito do amor.

Aonde é que você se escondeu?
Espero que não seja nas asas de um dragão.
Eles soltam fogo pela boca, e de enxofre são perfumados.

Quero mãos dadas.
E teus olhos de olhar estrelas.
Minhas asas estão abertas,
pus um perfume novo,
com cheiro de alecrim.

Eu largo tudo e me lavo.
Largo o fumo, viro novo homem.
E paro hoje mesmo de beber.
Se a rima é forte, o amor é mais.
Venha, que eu largo de tudo,
largo o meu mundo sem olhar pra trás...


Para Moça Branca

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ele foi e não voltou




Boa noite, meu Jesus.
Durma pro Sono da Vida.
Manda um beijo pra Deus
e pra quem mais estiver por lá...

Boa noite, meu Jesus.
Vá mas fique conosco
acordado. Acordado
nas ceias de nossa carência.

Meu Jesus Homem virará
Jesus Menino quando dormir.
Vai brincar nos campos serenos do Céu feito criança
por três dias.
E então Jesus Menino vai voltar
com a esperança e a alegria de quem acaba de chegar.

Estamos esperando, Jesus Menino.
Esperando o tilintar dos sinos
e o soar das trombetas ao vento.

Não sei se aí no Céu tem calendário, eu não sei,
mas os três dias já passaram há muito tempo...

terça-feira, 26 de março de 2013

Considerações irracionais I


É necessário uma distinção preconceituosa de minha parte. Não espero que me perdoem. Há os que vivem em ser o que são, e, ao meu ver, estes são os únicos que vivem, e há a grande maioria, e talvez você seja um deles, que é apenas reprodução da reprodução da reprodução. Eu já escrevi sobre isso, acho. Mas volto a falar. Há de se tomar um rumo, uma via para qual devemos nos apontar. Escolhe-se o empírico, perde-se a fundamentabilidade; escolhe-se o inatismo, generaliza-se o que é ingeneralizável. Escolhi a via da não-via. Isto me recorda Sartre. Mas aí, em contrapartida, me vêm cristãos, budistas, comunistas, justos, sãos e mais uma caralhada de definições-prisão que me enlouquecem a alma tentando me convencer da inutilidade de minha não-busca, da idiotice de ser o que a mim projeto. Somos aquilo que fazemos de nós mesmos. Obviamente este meu discurso é uma desculpa aos meus próximos, que muito me suportam, quanto às tempestades que tenho me tornado, e quanto aos atos amorais e/ou imorais que tenho praticado. Não sou justo ou injusto, louco ou são, hétero ou gay, mono ou politeísta... Sou tudo isso quando me convém, ao mesmo tempo que também não sou. O Ser é; Ser é; É É: dá no mesmo.. Que apenas sejamos. SER. Porque atribuir ao Ser algo que lhe é externo, é lhe configurar em algo que ele não é. O Ser não é passível de atribuições. Quando lhe dizem bonita mentem. Quando lhe dizem feia, igualmente mente. És nada disso. És, apenas, e obviamente se te projetas a ser.
Não sou Guilherme. Não sou brasileiro. Não sou o que quer que seja. Sou. Apenas isto. Chama-me por Ser, ou É. Não que ficarei feliz. Ficarei eu. Ficarei Ser. Ficarei É.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Só as crianças amam



Há muita burrice em amar.
Que idiota pára diante de uma fotografia e a fica admirando?
Só as crianças fazem isso com seus ídolos.
E convenhamos, as crianças são muito estúpidas. São belas, e estúpidas.

Chego a pensar se não há só burrice em amar.
Não, não digo burrice no amor. Amor é amor.
A merda é amar.
É, só há burrice em amar.

domingo, 24 de março de 2013

Tolo e grande

Tolo.
Tolo e grande como o menino
que vê no peão o giro do mundo.
Tolo e grande como o menino
que vê na pipa seu corpo no ar.

Tolice grande é estar com a concha no ouvido,
e o oceano frente a se dar.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ai de mim!


Ai de mim, que quero ser o escândalo necessário!
Se a morte lhes resolve o problema: mato!
Se a navalha na face lhe rebaixa ao seu posto: corto!
Se o porrete lhe quebra a cabeça imperialista: traumatismo craniano!

Ai de mim, e louvado seja eu
se esses são os desígnios de Deus!
Se é necessário o escândalo, Senhor, cá estou!
Se a morte veio buscar os impiedosos, eu me disponho:
dá-me a tua foice, Morte, que vou!


(Em protesto à minha inutilidade cidadã e à minha passividade diante das atrocidades do Estado neoliberal e fascista)



segunda-feira, 18 de março de 2013

Brancura das manhãs cinzentas

O negro dos teus olhos é de luz,
e a brancura de tua face é calmaria...

Quando o tempo se acinzenta
e desespera,
é tua lembrança que me clareia o dia!

sábado, 16 de março de 2013

Poetinha cachaceiro

A bebida é o único refúgio do poeta.

Nada de alvo seio,
de cabelos negros e entrelaces...

A quentura está numa caneca de rum,
e orgasmos nas doses de catuaba...

Se o amor lhe responde é lucro, meu poeta!
Se não é só um copo de cevada!

Vaziez

Estou transpassado pela inutilidade.
Minha vida não é vida.
Sou o mito, a engrenagem ignorante,
o parafuso inconsciente.

Como prosseguir?

Prossigo, não penso.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Migrante


Eu tinha braços maiores,
e a cabeça menor.
Meu peito era o mais grande
dos mais grandes.

Hoje a cabeça cresceu.
O coração tá pequenininho.
Não sei o que o mundo fez comigo,
e o que eu me fiz no mundo.

A saudade é grande.
São tempos que ficaram pra trás.
E o velho sorriso que eu tinha, não,
não volta mais.


Pelo dia 08 de março

domingo, 10 de março de 2013

Poesia de parir

Poesia é parto.
Parto normal.

Escrever é cuspir o amargor do mundo,
é como se libertar daquilo que lhe liberta.

Poesia dói nos quartos mais claros da alma.

Escrever é um ato de sacrifício,
é tecer sobre a própria pele todo amor e todo dissabor da vida.

Poesia é apagar a luz e se deixar sozinho na escuridão.

Poesia é parto normal.
Parto normal no escuro.

Grita-se, poema-se: mais uma culpa ao mundo.

[Sem-Título]

É tonto o poeta que ousa
na ventura de uma saia
firmar o seu pensamento!
As saias são como o vento...

E as mulheres lhe são tufões, ó poeta!
Esquece, que amado serás jamais.
Esquece, lembra-te de que és o mais torto
de todos os caminhos tortos...

Firma tua carroça numa ladeira bem íngreme.
Solta os freios, vê no que dá!
Assim deve ser tua vida, poeta:
O eterno fracasso ao muro que estoura.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Simulacros do Eu

Agora há um Sol lá fora.
Uma luz que entra em minha sala
mas que não entra em mim.

Eu já tentei ser luz.
Desisti.

Nas cortinas da janela de minha alma
há gordura de muita vida parada.
Talvez a claridade de minha vida seja estar na escuridão,
mas de nada sei.

Luz, só na constituição de minha treva
por aquilo que ela não é.
A minha luz descansa nos quartos que não eu.

De resto, obscuridade e imitação.
A verdade na mímeses,
no terceiro ponto afastado da verdadeira realidade...

Se sou, sou naquilo que também não é.
Simulacro das Verdades, que não existem.

Me fizeram poeta - mataram minha luz.

A-amor

Não amo ninguém.
Não amo alguém.
Amo mais o que sinto quando digo que amo.
O prazer do peito e suas ondas turbulentas,
as tempestades do âmago à boca pequena.

Amo mais o amor que o ser amado.
E quando digo amar alguém,
o que amo é o processo.

Perdoem-me, meus endereços de amor,
mas vocês me são apenas endereços.
A carta, mais ser que seu destino.
A carta, mais amor que qualquer amado.
Que o amado é mesmo o que se vai até quando chega
e se desfaz.

Não amo a chegada.
Amo o amor, o caminho.
Que o amor é o único
caminho a ser percorrido.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Louvemos aos putos

Todo filho da puta merece um poema.
Não porque a mãe é puta.
Não.
Normalmente a mãe desses filhos da puta não são putas.

Nem sei ao certo porque os chamamos assim.
Putos são esses filhos da puta.
E eu sei que você me entenderam.

Pois bem:
Todo puto ou filho da puta merece um poema.
É um desgraçado, coitado, não tem nada na vida.
O que de melhor lhe pode ocorrer nesta existência
senão nossos escritos a engrandecer suas almas medíocres?

Poesia aos putos!
Poesia ao filhos da puta com mãe puta ou não.
O que vale ao poeta é a escrita, e nada mais...

Louvemos aos putos - que a santidade já possui altares.

Aos pseudo-poetas

Deixa de ser merda!
Deixa de ser vazio, sem peito, sem alma,
sem medo!
Não vês o quanto és reflexo convexo da imitação dos outros?

Que os deuses se apiedem de sua carne,
e que a doença de não-ser nunca lhe pegue - se possível!
Ojeriza-me a criança que já pensa e age qual adulto,
e velho, e morto; que se envolve numa tumba de pseudo-sabedoria,
que finge escrever poesia
mas nem às fraldas mijadas sabe reclamar!

Vade retro, coisa nadificada!
Vai-te embora às tuas obscuridades improdutivas!
Deixa de ser merda, eu repito.
Deixa de ser merda enquanto há tempo de cheirares bem!



Aos pseudo-poetas, o que não me exclui.

Nascimento do poeta

Fui parido pelo Amor!
Lançado pelas cornetas do Paraíso,
aterrizei neste mar infértil e desalmado da Terra
para espalhar a poesia divina
no peito e na raça dos Homens!

Fui parido dos deuses
e dos mendigos que passam fome!
Eu sou poeta, não sou gente!
Não sou de carne, nem sangue corre em minha veias!

Eu vim ao mundo por vir ao mundo...
Pisando firme, espalhando vou
a minha erva a borbulhar caldos
e dividir as almas à contemplação!

É este o meu quinhão!
É este o meu quinhão!
Sou poeta, não sou gente!
Sou produto do amor - sou adulteração!

Hermanos no carnaval



Veja bem, meu bem,
o que eu vi passar.
Eu vi o bloco de uns barbudos
lá do sétimo andar!

Eu to saindo do apê.
Eu vou pra rua dançar.
Tira uma foto bonita,
manda o retrato pra Iaiá.

Olha o vento passando,
os passarinhos cantando.
Esse bloco dos barbudos é o melhor do carnaval.
Tira esse azedume,
essa tristeza, esse negrume.
Se veste de pierrot e vem ser sentimental.

A Anna Julia chegou.
Alguns hermanos tão vindo.
Vem que não demora,
passa rapidinha a hora,
e o cordão já tá subindo!

Veja bem, meu bem,
eu não só vi passar.
Eu fui pra rua barbado,
eu fui pra rua sambar!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

[Sem-título]

Tanta tristeza confundiu-me o pensamento.
Não sei o que sou sem a tristeza.
Cada sorriso que dou é farsa,
encenação imperfeita do que certamente não sou.

Tenho pena de minha alma.
Não ama a ninguém, por amar todos.
E por amar a todos, enloucura-se.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Olhos de mar

Menininha dos olhos verdes,
há quantos anos nos conhecemos?
Quão terna é nossa amizade
que o carinho é qual ad aeternum!

Este é só um poema
que eu fiz rapidinho
pra lhe ofertar.
Farei-te breve logo outros
do tamanho do céu
e do tamanho do mar..

Para A.S.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Encontrei meu velho amor no carnaval

Me desespera o desespero da tua pele,
o "tchau" não dado pela falta que faria.
Arrepia-me saber das coisas que se foram
e que não voltam nem se os dois quisessem.

Os olhos de despedida
e as mãos que não se tocaram.
Arrepia-me o vulto que somos
e os dissabores de nossas lembranças.

Somos livres, finalmente,
na liberdade dolorida das coisas não ocorridas.
Somos livres,
e passos largos em direção à dor no peito.

Estamos fantasiados de prazer e euforia,
é noite de carnaval.
Estamos vestidos de bom cheiro e vida,
enganosos de nossa própria desgraça.

E qualquer que seja a graça que se faça,
nossas máscaras cairão quando deitarmos em nossas camas.
E haverá um amor que já não existe pulsando,
como a criança chorosa que eternamente chama.

Quarta-feira de cinzas

Crepita o fogo das horas,
o desejo do poema
- A casa morna das almas,
onde dorme o monstro naufragado.

Sentir-se só,
ventura aos homens corajosos,
é ter nos pés o desejo de ser alado.

Belo é ser fraco e poeta eternamente,
e ser a casa das almas pobres da riqueza.
Ser um barco a navegar despovoado
num mar de muita dor e solidão.

Poesia, o fogo crepitante da euforia
em um coração de amargura magoado.
Celeste alegria dos poetas
que a escrevem e a pintam
em cadernos de pauta azul rabiscados...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Vida

Vai-se o rumo na vida.
Vai-se o fio da meada.
A poesia galopeia no fora do tom
das coisas que não se dão tempo de serem ditas.

Vai-se o rumo na vida,
que a vida não é um ato de poesia.
É antes o borbulhar das coisas que não se dão tempo,
o vento sem o cheiro do pão fresco,
a borboleta morta e o Sol tapado com uma cortina cinza.

Vai-se o rumo que não era vida,
que era o caminho de não-vida, poesia.
Vai-se porque hoje muito se vive
e pouco se escreve.

A poesia é morte das coisas não-mortas.
A vida - tudo aquilo que não se escreve.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Homem-deus-uno-múltiplo




O entusiasmo do poeta Íon e as bacantes,
a lascívia dos sacrifícios do grande bode.
O compasso desmedido da hybris flamejante...
Ó Grécia, louvar teu Dioniso é pra quem pode!

O Sol da lógica do reto pensamento,
a coroa do saber e de tudo o que é regrado.
Louvar o vinho é se querer o sofrimento...
Louvar o teu Apolo, ó Grécia, é estar santificado!

Mas que louvem a mim, o novo deus!
Que me louvem e me rendam oferendas!
Deem-me flores e frutas e vinhos,
mulheres nuas e carinhos,
que eu sou maior do que o próprio Zeus!
Eu sou o Homem Um e o Múltiplo,
homem-mistura entre o profano e o sagrado...
Se Apolo me guia pela cabeça,
é Dioniso quem me está ao lado!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Canto aos que me cantam - Iemanjá




Ó, minha Mãe,
derrama-me tuas águas!
Ó, minha Mãe, 
minha Mãe d'Água,
afoga-me com teu mar revoltoso,
afoga-me contigo, que tu és o próprio mar!

Odoyá, Orixá-água,
teus colares refletem a luz pro meu caminho!
Janaína, Orixá-vida,
sou teu filho pescador e
sei que não estou sozinho!

Dia dois é que eu te canto
vestido de azul e branco
com turbante na cabeça.
Dia dois sinto a firmeza
do meu nascimento nas águas de prata.

Minha Mãe, levo-te flores
e barquinhos de amores
carregados de perfume!
Te pedindo, ó Mãe Querida, 
que tomes conta da minha vida,
que resguarde a minha casa,
o meu sobrado pequenino.

Axé, minha Mãe, é o que peço!
E rezo, e trabalho, e sofro!
Ainda tenho o alvoroço 
das confusões por ser criança...
Dá-me a tua esperança ante a causa já perdida!
Dá-me o sopro que se cala, dá-me a voz que já não fala,
que tu és a rocha mais firme que me ampara nesta vida!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Espero que você me queira

Você não consegue me fazer de bobo,
eu já conheço a artimanha desse teu postergar.
Deixa disso, e vem logo.
Entregue-se. Se entregue as tempestades...

Não vou cansar de te esperar,
você pode fingir não me querer 
o quanto quiser.
Eu sei o quanto você me quer.
E sei, mais ainda, o quanto eu te quero.

Demore, que eu espero
apesar de toda minha pressa em querer
novamente o teu abraço e o teu sorriso.

Demore, que eu te quero
mesmo com esse gostinho de demora.
Demore, mas sem demora,
que eu te quero pronta aqui, 
pronta pra nossa próxima vez.

Você não consegue me fazer de bobo.
Eu já sei o quanto você quer me chamar de homem,
e ouvir eu te chamando de mulher.
Demore, mas venha.
Mas, por favor, venha assim que puder...


Para a13.

À senhora dos cabelos de leão

Quero novamente o teu beijo!
O meu desejo de tocá-la 
se aninha em minh'alma
de tal forma que me acalma 
e me alucina por inteiro!

Ah, meu amor que não vejo!
Quero ter-te mais senhora dos meus pensamentos,
quero ter o momento
de pôr minhas mãos no delinear do teu corpo!
E tudo me será tão pouco
ante a grandeza dos teus cabelos que são qual chama!

Ó vem, meu desejo,
me dá teu ensejo, me estilhaça na cama!
Sou tua ternura amiga,
a paz no meio das tuas intrigas, 
sou quem te ama, e ama, e ama!


Para a13.



Parto para chegar

Me vou embora,
que não me cabem mais
as algemas de não ser-te.
Já não me detenho em buscá-la em outros cantos
que não aqueles de minha casa e nosso corpo.

Estou cansado dos louvores sinuosos
que eu canto ao teu corpo e ao teu peito.
Não sou o que te perde e o que te acha,
e por isso me vou,
vou-me, mesmo que eu me desfaça contrafeito.


O amor, em mim, tem duas faces.
A que se foi e a que aqui está, e permanece.
Tu me foste um sonho bom que hoje desperta.
E hoje só tenho a parte que me anoitece.

Se vou tecendo retalhos
da poesia que, sucinta, escrevo,
é que te quero sempre, ainda que pouco,
balbuciando em minhas entranhas o que ainda não me dizes.

Mulher, se hoje somos infelizes,
o tardar da dor no peito é somente culpa tua.
Estou aqui, à tua espera,
na paixão que galanteia e reverbera
a delícia de nossas almas nuas.


Para a13.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Leve dois e pague um

Te fiz um poema, meu bem.
Mas eu nem sei se tu gostas de poesia.
Na verdade,
do que mais gostas, meu bem, 
além de brincar com meus desejos?
Do que tu gostas mais em mim 
do que de minha boca e só minha boca?

Te queria tanto, meu bem.
E ainda quero. Ainda hoje, se possível.

Te fiz um poema. Mas eu nem sei se gostas mesmo de poesia.
Mas quem não gosta de poesia com um beijo como o teu?
Não sei, meu bem. Não sei.

Só sei que te fiz um poema.
E é este aqui, pequenino.

E mesmo que tu não me queiras,
aceita meu poema.
Queira meu poema.

Pelo menos assim me sentirei mais teu,
mais na tua casa, no teu quarto, na tua gaveta,
na tua caixa de lembranças..

Mesmo que não me queiras, meu bem, queiras tu minha poesia.
Pois que levando-a me levarás por completo,
e por brinde, 
e em dobro.
Tipo no leve dois e pague um.


Para a13.

Migalhinha

Estampo agora em meu rosto um sorriso de mentira.
Já foi-se o tempo em que eu dizia só verdades.
Hoje ninguém precisa saber do meu eu,
nem eu.

Deixo o tenebroso às sombras do meu intracorpo.
A tenda do meu circo é colorida por guirlandas,
mas na arena do meu peito é o estrume que opaca.

Qual o problema de ser belo e feio ao mesmo tempo?
Não há motivos para sorrir.

O homem que sorri é o mais são!
E o poeta não é são! é a-são! é não! negação!
O homem que sorri, sorri por saber mais da tristeza,
e por ela ter amizade complacente.

Eu sou poeta, verme-indizente.
E choro minhas verdades na brancura das desverdades.
Clamo por meus poemas sorrindo o estoque que tenho.
E não me abate o meu eu, que já não é.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Sejamos amantes

Deixe-me ser o seu amante.
Por favor, não tenha medo,
que eu sei bem guardar segredo,
e sei ser bem mais que um amigo.

Por favor, não faz isso comigo.
Não me deixe esperando,
não me deixe amargurando
só o cheiro do teu corpo vestido.

Eu quero correr o perigo
de ser pego em tuas pernas.
Eu quero tomar o teu tempo
que é sem amor e sem cama...

Eu quero, te quero, me queira, me chama!
Chama o teu velho amigo,
não custa correr o perigo
que vai incendiar nosso corpo...

Vamos morar um no outro,
e fazer um do outro abrigo.
Eu cansei de ser só seu amigo,
eu cansei de ser só um instante...

Venha morar no meu quarto,
me faz outro ser, delirante,
que desse marasmo estou farto...
Sejamos amigos, mas sejamos amantes!


Para Z.S.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A morna das horas



Manhã tão arredia,
teu espanto é bem mais meu.
Figuras, somente, ao mundo
o que de mim tanto tu fazes.

Quando chegas e te aprumas,
e clareias com belo Sol ou brumas
as noites em que flutuo perdido,
sinto minha alma elevar-se
procurando algum chamado
que não ouço.

És nebulosa e céu limpo,
azul e rosa quando derramas em teu leito
o sangue inocente que morreu na noite.
E coronária do coração que aperta,
manhã doce, tu libertas no homem
o desejo de ser livre.

Manhã tão arredia,
tu não és noite, nem dia.
És solidão e ventura,
és cinza e negra, e alvura.

Compasso desregular das horas,
eu te espero logo além da curva que não fazes.
Te espero e guardo com a vontade
de ser tão morno quanto tu: sem início e fim, só meio.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bilhete pro deus

Deus,
a gente só quer ser feliz.
a gente só quer ter um amor
e crianças correndo pela casa com a barriga sempre cheia.

Deus,
a gente não gosta de muita chuva sem uma paixão,
nem de muito Sol sem uma piscina.
a gente só quer um pouco de tranquilidade.

Sim,
a gente só um pouco de felicidade.

Amargura

Amargo é o não poder querer-te,
e ver no peito do outro o seio que quero comigo.
Amargo é não ter em minha boca o flerte
por amares cegamente o amor de meu grande amigo!

Quisera eu! ter a alma dos anjos e não amar,
sequer, a alma de uma criatura humana!
Mas minh'alma é dos homens poetas: fraca e triste,
que recobre-se no que insiste em vê-la nua,

e em minha cama!

Para Z.S.


domingo, 6 de janeiro de 2013

Folha de Jurema




Meu pai, fui almoçar.
Fui-me embora pra fazenda,
fui pro mato pra caçar.
Caçar peixe no riacho, tatu na beira do rio.
Oh, meu pai, mato faz frio,
mas caçador tem que caçar.

Fui pro mato, meu paizinho,
fui pro mato pra caçar.
Saco vazio não para em pé,
meu terreiro está cheio,
e eu preciso curimbar.

Fui escravo de homem branco.
Meu pai, dá-me acalanto,
como eu sofri em pranto
por não saber me embrancar!

Hoje sou cavalo de terreiro,
e tenho o Caboclo Flecheiro,
caboclo de raça, guerreiro, na minha banda a resguardar!
Eu sou é filho de Angola, de Ketu, Jeje e Nagô,
sou filho de todo amor, sou filho de Oxalá!

Eu sou cria do ventre
de um navio negreiro!
Preto-velho do terreiro, cabeça baixa no gongá..
Sou benzido com as ervas da Jurema,
na mata verde e serena,
canto pro Juremá!

Choro fajuto

Dias cinzentos de Sol
são tão tristes...
O amor não resiste
nem a uma manhã ensolarada.

É necessário que se sofra,
que se arranhe por dentro,
e se morda.

Meus olhos lacrimejam
mesmo num dia de Sol.
Eu julgo ser a mesma tristeza
dos dias frios e opacos.
Mas não. Deve ser o ventilador no meu olho.

Feliz aniversário


Feliz aniversário, meu amor.
Há três anos eu te amo.
Há três anos eu escondo o quanto te amo.

Sei que não haverá bolo nem bexigas coloridas.
Não temos convidados, nem o parabéns.
Esse aniversário é só teu em mim.
Nem tu o sabes!
Mas feliz aniversário, meu amor...

Feliz aniversário, meu amor.
Há três anos eu te amo.
Faz três anos que tu nasceste para mim.
E que eu morri pro resto de tudo.

Feliz aniversário, amor.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Moça Branca VIII - Canto só

Como eu queria que você viesse!
Como eu queria tê-la em meus braços!
Já não me basta mais o sonho,
nem os delírios do poeta nefasto!

Moça Branca, mulher de mim.
Tu me levaste o que eu tinha de melhor...
E a poesia descabida é ventura,
cobertor da dor de estar sempre só!

Doce volúpia em minha boca.
Eu não lhe sinto nem lhe posso sentir, eu sei!
Estou na Lei dos escreventes fracos do amor.
A Lei mais bela dos parcos beberrões!

Canto só e tristonho,
louco de pedra a desejar quem já amei!
Impossível é tirar do peito as belas canduras,
as belas alvuras com as quais Afrodite brindei!

Choro eu, cá no porão dos aflitos.
Mas não me importo em estar sempre só e são.
Que minha loucura é pelas saias que giram
e pela boca vermelha a me desvairar em prontidão.

À Moça Branca rendo meus prantos
com a saudade dos seios que nunca tive;
com a ternura do amante incendioso
e do libidinoso que não resiste...


Para M.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Caminhão de mudanças

É do mover-se natural estar só, e parado.
Nada muda aos que se movem.
Anos, meses e dias iguais.

Movo-me. Não mudo.
O que eu falo é a vontade de escrever o que não escrevo.
Deram-me, no parto, o sangue movente.
E a saudade da mudança é sempre eterna em meu peito.

Se o grito da vela é a parafina que escorre,
eu me socorro é onde quebra no rochedo a grande onda.
Confusão do mar solitário e ventania.
Tudo move e permaneço.

É do mover-se natural estar só, e parado.
Mistura é sempre Um. Amálgama é celeste.
Dou um passo, já não sou.
Reconstruo-me de água.